Agenda do Porto

Blog (não institucional) de divulgação cultural. Agenda cultural do Porto

13-06-2009

Já na próxima semana | Doc's Kingdom 16-21 Junho

DOC'S KINGDOM
Seminário Internacional sobre Cinema Documental
16 a 21 de Junho 2009
Serpa - Portugal 

com a presença de:
TIAGO AFONSO | MÓNICA BAPTISTA | EDUARDO ESCOREL |
ROBERT FENZ | SYLVAIN GEORGE | MÁRIO GOMES
MANUEL MOZOS | ALIONA POLUNINA | LEE ANNE SCHMITT
ABDERRAHMANE SISSAKO | GONÇALO TOCHA

e filmes adicionais de:
BRUCE BAILLIE | RAYMOND DEPARDON | COBRA T E COBRA G | PETER HUTTON |
KEN JACOBS | JOHAN VAN DER KEUKEN | MANOEL DE OLIVEIRA |
PIER PAOLO PASOLINI | GLAUBER ROCHA


A edição do Doc's Kingdom apresenta um percurso por uma série de obras
 históricas e contemporâneas, propondo, na tradição do Seminário, uma abordagem transversal que permita reflectir sobre diversos aspectos da imagem política (e imagem da política) no cinema.

Entre os convidados esperados em Serpa este ano incluem-se Abderramane Sissako. Considerado um dos mais importantes realizadores africanos da actualidade, Sissako nasceu em 1961 no Mali, tendo estudado cinema em Moscovo e rodado o seu primeiro filme em 1989, Le Jeu, seleccionado para a Quinzena dos Realizadores em Cannes. Os seus filmes cruzam a ficção e o documentário, pensado como espaço simbólico que permite uma reflexão sobre temas concretos que se relacionam com o continente africano de forma crítica, eminentemente política mas igualmente poética. Realizou, entre outros, Octobre (1993), Rostov-Luanda (1997), La Vie Sur Terre (1998), Heramakomo (2002) e Bamako (2006). A complexidade e o interesse dos seus filmes reside numa forma particular de "ruptura" com algum cinema "observacional" e pela forma como coloca em cena uma visão nova do conflito e história africana. A obra de Sissako foi objecto de retrospectivas recentes, como aconteceu em Londres no BFI e vai ser retrospectiva no MoMA em Nova Iorque pouco tempo depois desta homenagem em Serpa.

Um dos temas presentes neste Seminário é o da memória dos eventos políticos e particularmente da Revolução. Eduardo Escorel, que vai apresentar em Serpa os filmes 35 - O Assalto ao Poder, J. e O Tempo e O Lugar, foi uma das figuras essenciais no Novo Cinema Brasileiro, assinando a montagem das grandes obras de Glauber Rocha como Terra em Transe, mas também de Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade, de Eles Não Usam Black-Tie de Leon Hirszman ou de Cabra Marcado para Morrer de Eduardo Coutinho. A temática política permanece no centro da sua obra enquanto realizador, variando entre documentários que procuram pensar a História do século XX brasileiro e filmes que procuram investigar a situação política actual e dar a palavra aos intervenientes directos nas questões sociais do momento. Escorel é igualmente um ensaísta profícuo que tem reflectido sobre a história recente do documentário. Vai estar presente em Serpa para falar do seu cinema político e apresentar uma obra de Glauber Rocha em que colaborou.

Dois filmes evocam a complexidade identitária e política da Rússia contemporânea: o filme de Aliona Polunina, Uma Revolução que não o foi é uma aproximação impressionante e cumulativa do percurso dos militantes do partido nacionalista bolchevique russo no ano que antecedeu as eleições de 2007. Documentário com um fôlego formal invulgar, centra os acontecimentos na história da relação entre um pai e um filho, ambos militantes do partido e o seu percurso, ambições e frustrações, num retrato da Rússia moderna, dos seus líderes políticos e finalmente da formação da ideologia, do associativismo partidário e da sombra do totalitarismo político.
O filme de Mónica Baptista, Territórios, atravessa a Rússia num vagão de
 terceira classe em que viajam, lado a lado, um soldado russo e um checheno. Mónica Baptista usa esse vagão como maquete do complexo puzzle político russo, sempre à beira da desagregação, e acompanha os dois viajantes numa travessia a um tempo geográfica e histórica.

Robert Fenz, outro dos cineastas presentes em Serpa elege como preocupação fundamental da sua prática cinematográfica a questão da memória política, da inscrição dos vestígios históricos dos locais que filma numa série de retratos cinematográficos que se inserem numa tradição rica da história do cinema que cruza o ensaio visual com as potencialidades descritivas da imagem. Herdeiro de cineastas como Peter Hutton (com quem estudou), mas igualmente dos grandes retratistas do século XX, James Agee ou Rudy Burckhardt, Fenz realizou uma série de "meditações", aproximações sensíveis e variadas à memória da revolução e da sua história pessoal na passagem por países como Brasil, Cuba, Polónia, Turquia e Estados Unidos. Marcado pelo cinema militante clássico, nomeadamente pelos filmes dos colectivos Newsreel, pela obra de Santiago Alvarez, mas igualmente pelo cinema experimental, a obra de Fenz é profundamente marcada pela sua formação como músico de Jazz e pela colaboração regular com aquele que foi seu professor e mentor, o trompetista Wadada Leo Smith. A sintaxe dos seus filmes deve então tanto à sua formação e conhecimento da história do cinema como ao seu interesse pelas estruturas de improvisação e relação entre imagem e som (e a sua ausência) que define os seus filmes. Fenz é igualmente operador de câmara, tendo colaborado com Chantal Akerman em From the Other Side, o seu filme sobre a fronteira entre o México e os EUA e com outros cineastas como o libanês Wael Noureddine. Fenz vai apresentar em Serpa as suas meditações mas igualmente filmes de outros cineastas como Johan van der Keuken, Ken Jacobs, etc. O próximo projecto de Robert Fenz é uma reflexão sobre a obra cinematográfica do documentarista Robert Gardner com quem Fenz teve a oportunidade de colaborar.

Também da memória dos lugares falam os filmes de Manuel Mozos e de Lee Anne Schmitt. São dois filmes muito diversos, eventualmente até opostos na forma como abordam a questão da memória dos lugares, das suas histórias e abandonos. O filme de Mozos apresenta "fragmentos de espaços e tempos, restos de épocas e locais onde apenas habitam memórias e fantasmas. Vestígios de coisas sobre as quais o tempo, os elementos, a natureza, e a própria acção humana modificaram e modificam. Com o tempo tudo deixa de ser, transformando-se eventualmente numa outra coisa. Lugares que deixaram de fazer sentido, de serem necessários, de estar na moda. Lugares esquecidos, obsoletos, inóspitos, vazios." Uma viagem por lugares vazios, pelos sons que os habitaram, por textos e camadas de referência que a eles se referem. Lee Anne Schmitt passou os últimos anos a viajar pela Califórnia e a investigar a história das cidades fundadas por corporações e colectividades empresariais. Cidades satélites, artificiais, a orbitar em redor dos grandes centros económicos da Califórnia, muitos dos locais são hoje praticamente abandonados, vestígios históricos da exploração capitalista ao longo do século. O filme de Lee Anne Schmitt instala-se nos locais para deles extrair uma imagem "histórica", com um rigor que lembra os filmes de James Benning (de quem foi aluna) e o interesse na investigação e clarificação que se encontra nos ensaios cinematográficos de outro dos mais importantes cineastas norte-americanos, Thom Andersen. Mas a cineasta transforma o filme numa obra sua pela forma como organiza a viagem pelos lugares, como põe em destaque as diferentes camadas e estratos que definem a paisagem americana e as diferentes histórias que encerra.

Dois dos filmes portugueses incluídos em Serpa pensam o tema da aproximação à revolta e ao epicentro dos acontecimentos políticos do nosso tempo de duas formas diversas. O filme colectivo Cobra G8 reflecte sobre a presente e aparente impossibilidade de filmar os acontecimentos políticos e o seu afastamento das pessoas a quem interessam directamente (a sociedade civil), filmando na fronteira sitiada para onde são remetidos os protestos e questionando o modo como "a fobia da imagem impede a revolução de ser filmada". Foi filmado num dia, num bloqueio de uma estrada que conduzia a Heiligendamm. O filme que daí resultou é um regresso a essas imagens, a uma tentativa de ordenação posterior e dá corpo a uma personagem misteriosa que permanece precisamente na fronteira, imóvel e central a tudo o que o rodeia.

O filme de Tiago Afonso Lefteria = Liberdade foi realizado em Atenas em Janeiro de 2009, nos dias logo a seguir às revoltas de Dezembro por toda a Grécia, e é uma tentativa de perceber e apreender a partir de dentro as razões e as vozes dessa revolta. Renegar as generalidades do discurso mediático para se instalar nos bastidores e ouvir as discussões, as vozes dos estudantes, dos professores, dos sindicalistas e jornalistas.

O cineasta francês Sylvain George junta-se ao grupo de convidados de Serpa para nos ajudar a reflectir sobre as formas do cinema militante e sobre a acção política/ cinematográfica e o activismo. Formado em Filosofia e tendo trabalhado essencialmente nas áreas sociais e das ciências políticas, os filmes de Sylvain George filmados em diversos registos e formatos constituem ensaios poético-políticos e retratos sobre a realidade da imigração em França, numa série de manifestos, "contra-fogos" e filmes de combate. A contribuição de Sylvain George ajudar-nos-á a pensar sobre o que é que pode ser o cinema militante, as suas limitações e possibilidades concretas de intervenção. Apresentar-se-ão filmes como Un homme ideal, Qu'ils reposent en révolte (Des figures de guerre). Encontra-se igualmente a realizar um filme a partir dos textos teóricos (e imagens) do filósofo Guy Hocquenghem.


O Doc’s Kingdom é um encontro internacional de reflexão sobre o cinema documental que inclui a projecção de obras relevantes produzidas nos últimos anos e a realização de debates onde é dada a oportunidade de contacto directo com os realizadores dos filmes e diversos profissionais, fomentando a análise e discussão sobre os caminhos do cinema contemporâneo. Nas edições anteriores estiveram presentes convidados como Sergei Dvortsevoy, Rithy Panh, Pedro Costa, Avi Mograbi, José Luis Guerín, Catarina Alves Costa, Nicolas Philibert, Sato Makoto, Ivo Ferreira, Zhong Hua, Andrijana Stojkovic, Catarina Mourão, Gert de Graaff, Klaus Wildenhahn, Mercedes Alvarez, Victor Erice, Giuseppe Morandi, Li Yifan, Mohamad Al Roumi, Frederick Wiseman, Rahul Roy, James Benning, Peter Nestler, entre outros.

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DOC’S KINGDOM 2009 
Reinterrogar a imagem política
Ainda nas cinzas dum século que foi da política e do cinema, como pensar hoje as relações entre estes dois campos?
Começando por evocar gestos seminais de uma época em que já tinham sido questionados radicalmente os termos
dessa dicotomia (a viragem dos anos sessenta para setenta), avançamos depois para filmes recentes que nos ajudam
a pensar o intervalo decorrido e a abertura de novos ciclos. Por um lado, obras em que pesa a agonia dum tempo –
a política depois da política do século XX, a política depois da política. Por outro, explorações cinematográficas de
territórios marcados pela memória, ou pela ruína desse tempo. Por outro ainda, novos libelos políticos directos que,
num equilíbrio hoje raríssimo, se desenrolam também como um discurso sobre o uso da imagem. Algumas pistas,
num programa que não se pretende sistematizador, antes é feito de interrogações parciais, de títulos que podem
abrir fendas nos clichés que perduram. Ainda e sempre: o que é uma imagem política?
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Posté par portuense à 03:17 - Mostras, Festivais e Concursos - Commentaires [0] - Permalien [#]
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